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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Educação de qualidade: Se a China pode, o Brasil também pode

Medidas específicas podem ser testadas em regime piloto, com boa chance de terem sua adoção recomendada em grande escala

O EXEMPLO ASIÁTICO - A China mostra que a ideia de que não pode haver educação de alto nível em cenário de pobreza é balela. No último Pisa, a província chinesa de Xangai, que tem nível de renda per capita muito parecido com o brasileiro, deu um show 
O EXEMPLO ASIÁTICO - A China mostra que a ideia de que não pode haver educação de alto nível em cenário de pobreza é balela. No último Pisa, a província chinesa de Xangai, que tem nível de renda per capita muito parecido com o brasileiro, deu um show (Philippe Lopez/AFP)
Desconfio que, à medida que o crescimento chinês for se mantendo firme em período de crise no Ocidente e sua educação continuar despontando nos primeiros lugares dos testes internacionais, muita gente vai se perguntar se devemos adotar o sistema político-econômico e educacional da China.
Com o primeiro, apesar de todas as suas virtudes, eu, pessoalmente, não me entusiasmo: para mim, a liberdade é um valor supremo, e a democracia é uma conquista inegociável.
O sistema educacional, pelo contrário, tem muito mais virtudes do que defeitos, e imagino que você deva estar se perguntando: dá pra copiar? Deveria ser o nosso modelo?
A resposta é não. Sistemas educacionais são frutos orgânicos do desenvolvimento histórico, social e cultural dos países em que estão inseridos, bem como atrelados ao seu projeto de futuro. Faria tanto sentido ao Brasil querer replicar o sistema de Xangai quanto ao Paysandu querer fazer uma cópia do Barcelona de Messi.
O que dá pra fazer é olhar para algumas medidas específicas e implementa-las em regime piloto em alguns locais do Brasil pra ver se funcionam. Somente depois de testadas empiricamente é que poderiam ser recomendadas em escala.
Se eu fosse um gestor público brasileiro, as medidas que testaria são essas:


Medida O que É por que testar
Grupos de estudo de professores Regime de reuniões semanais e quinzenais dos professores de mesma disciplina, no nível da escola e distrito, para preparar aula e compartilhar melhores práticas Há uma heterogeneidade muito grande no sistema brasileiro e um grau de autonomia exagerado para os maus professores. O grupo de professores ajuda a popularizar melhores métodos e monitorar os piores profissionais e escolas
Implantação de um professor-líder por turma Cada turma tem um professor que é o seu principal responsável, conhece os pais dos alunos, vê se todos vieram à aula, resolve conflitos etc. Permite abolir a chamada. Cria interlocução mais direta com os pais. Aumenta o senso de responsabilidade da escola perante seus alunos.
“Empowered management” As piores escolas têm sua administração substituída por profissionais das melhores escolas Resgata a qualidade das piores escolas e ainda beneficia financeiramente as melhores escolas.
Dever de casa Estipular dever de casa escrito a partir do 3º ano, começando com cerca 1,5 horas/dia e chegando até 3h/dia no fim do ensino médio, especialmente em Matemática e Ciências. Toda a pesquisa empírica mostra que o dever de casa é fundamental para a aprendizagem, especialmente em exatas. No Brasil, se faz muito pouco e muito mal. É um ritual ou punição pro aluno, não ferramenta de ensino.
Aulas de 40 minutos com intervalo de 10 minutos entre elas Ao contrário do sistema de aulas de 50 minutos sem intervalos Organiza o calendário de forma realista e coíbe atrasos de professores e alunos
Diminuição de número de funcionários fora de sala de aula Melhorar a relação professor/não-professor no sistema. O número de funcionários em relação a professores no Brasil é incríveis 5 vezes maior do que em Xangai. Enquanto houver esse inchaço, não sobra dinheiro pra gastar no que é mais importante.
Criação de prêmios para professores e divulgação dos vencedores Os melhores professores de cada disciplina recebem prêmios em suas escolas, depois competem com os da região, cidade etc. O reconhecimento da comunidade pode ser tão ou mais importante que dinheiro para motivar o professor.
Progressão na carreira vinculada a esforço e iniciativa individual Em Xangai, para ganhar mais, professor tem de não apenas mostrar competência como se comprometer a aumentar significativamente suas horas de treinamento Cria uma contrapartida para o aumento, alinhando o interesse do professor com o do aluno. E torna a promoção uma iniciativa individual, sem requerer negociações coletivas desgastantes.
Treinamento para diretores e professores Ninguém pode se tornar diretor de escola sem curso de administração escolar. E todos os professores passam por treinamento nas férias, todos os anos. A função de diretor é fundamental para o bom andamento das escolas, mas os diretores brasileiros não são preparados para o cargo. Dependemos do talento e perseverança de cada um.
Os professores precisam de atualização e acompanhamento constantes para que suas aulas não estagnem.
Criar fóruns online para professores Espaços na internet em que o professor pode interagir com colegas e com experts pedagógicos da sua área da prefeitura Diminuir o isolamento e sensação de abandono dos professores, criar uma rede colaborativa, disseminar melhores práticas de ensino e tirar dúvidas
Ter data show em sala de aula e disponibilizar materiais online Instalar aparelho de projeção, cuja imagem ocupa parte da parede antes destinada ao quadro negro A instalação do datashow aproveita melhor o tempo em aula, evitando a cópia. A disponibilização de material online ajuda mesmo os piores professores a dar uma aula competente.
Criação de currículo Fazer com que todos os professores da sua rede saibam o que têm de ensinar, aula a aula, e as competências que o aluno deve dominar ao fim de cada bimestre É impossível ter uma rede com ensino de qualidade se cada escola pode ensinar da maneira que quiser e sem clareza sobre o que precisa ser atingido
Fazer escolas de um ciclo só Ter escolas que sejam de 1º ao 5º ano, outras do 6º ao 9º e outras pro Ensino Médio Permite número maior de turmas por série e a criação de grupos de estudo de professores


Fonte: http://bit.ly/rxbN8i

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O Ócio Criativo – Domenico de Masi vislumbra o que podemos esperar do futuro

Livro: O Ócio Criativo - Clique e compre


Domenico De Masi, o que você pode esperar do futuro, na vida, na carreira e no mundo ?
Para os próximos 20 anos, vislumbro dez tendências relacionadas ao trabalho e à vida. Por que dez? Porque precisamos de modelos. E que modelo melhor que Deus e seus dez mandamentos?
1. Longevidade: A Aids, o analfabetismo e boa parte dos tipos de câncer serão debelados. A inseminação artificial estará na ordem do dia. O dióxido de carbono na atmosfera será mínimo. Os cegos verão através de aparelhos. Transplantes de órgãos, naturais e artificiais, permitirão viver mais. Passaremos dos 100 anos, e com boa saúde.
2. Tecnologia: Um único chip será mais potente do que todos os computadores juntos do Vale do Silício de hoje, terá o mesmo tamanho que um neurônio e custará 1 centavo. Todo o trabalho intelectual repetitivo será executado por máquinas, como ocorreu com o trabalho manual neste século.
3. Trabalho e formação: Será cada vez mais difícil fazer uma distinção precisa entre trabalho, estudo e tempo livre. A educação, intensa e permanente, ocupará boa parte da vida. Os horários perderão importância. O que contará no trabalho serão os resultados, não o tempo para fazê-los. A remuneração será calculada de acordo com o valor agregado e as metas atingidas. Haverá, decerto, um novo pacto social para redistribuir a riqueza, o trabalho, o conhecimento e o poder. Uma guerra sem cartel será travada entre a criatividade e a burocracia. Ninguém vai fazer trabalho braçal por mais de cinco anos. Donas de casa e estudantes devem ser remunerados, assim como os desempregados. Trabalhos voluntários e obras sociais estarão por toda parte.
4. Onipresença: Estaremos em contato com qualquer um, em qualquer lugar, por celular e Internet. À distância, aprenderemos, trabalharemos, amaremos e nos divertiremos. Corremos o risco de nos tornarmos virtuais demais, por falta de contato direto com outras pessoas. O sedentarismo desse modo de vida pode nos tornar obesos. Mas a cirurgia plástica resolverá isso – modificaremos o corpo e a fisionomia a bel-prazer. Graças a novos remédios, controlaremos ou melhoraremos nossos sentimentos.
5. Tempo livre: A maior longevidade e o apoio da tecnologia aumentarão as horas de ócio. Ironicamente, o problema do próximo século será como ocupar o tempo livre de forma a evitar o tédio. Cresceremos intelectualmente? Tenderemos à criatividade ou à dispersão? Prevalecerá a violência ou a harmonia? São perguntas ainda sem resposta. O que se pode afirmar é que teremos de nos preparar para ocupar o tempo livre da mesma forma que nos preparamos hoje para trabalhar.
6. Androginia: As mulheres estarão no centro da sociedade. Valores considerados femininos (emotividade, subjetividade, flexibilidade) serão incorporados pelos homens. No estilo de vida, prevalecerá a androginia.
7. Estética: Como a perfeição técnica deve ser um requisito, o que vai fazer a diferença são as qualidades formais. Ou seja, forma vai ser tão ou mais importante que conteúdo. Daí as atividades estéticas virem a ser valorizadíssimas – assim como ocorre hoje com as científicas.
8. Ética: Numa sociedade voltada à prestação de serviços, a fidelidade do cliente será a maior vantagem competitiva. A ética de um profissional será seu mais alto patrimônio. Apenas os homens de caráter vencerão nesse mundo. Da mesma forma que a sociedade industrial é relativamente menos violenta do que foi a medieval, a sociedade pós-industrial será menos violenta do que a industrial.
9. Subjetividade: Mais do que hoje, o que diferenciará profissionalmente uma pessoa da outra serão seus gostos e seu comportamento. As pessoas devem fazer só as coisas pelas quais se apaixonem e só trabalharão em áreas que as motivem. A motivação será um fator muito competitivo.
10. Qualidade de vida: As pessoas não aceitarão trabalhos que as impeçam de viver bem. Uma vez que viver mais será fato consumado, a preocupação será como viver e não o quanto viver. Estarão em alta a disponibilidade de tempo, de espaço, de autonomia, de silêncio, de segurança e de convivência.

Trecho extraído do livro O Ócio Criativo, de Domenico de Masi
Fonte: http://bit.ly/nboqbt 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Qualidade de Vida: é permitir-se ir além

Sempre que abordo o tema qualidade de vida, gosto de utilizar a expressão "vida com qualidade".

Ambas parecem ter o mesmo significado, porém um olhar mais acurado descobrirá nelas conotações diferentes.

Todos concordamos que temos que caminhar, tomar sol antes das dez da manhã, passar bloqueador solar, comer melhor, não beber, não fumar... mas, são tantos esses "mandamentos", que, no afã de cumpri-los, podemos acabar estressados, deixando de lado o que certamente é mais importante: a alegria de viver.

O que ocorre é que, nesse cotidiano agitado, em que temos que compatibilizar as exigências de casa e de trabalho, estamos perdendo a capacidade de reconhecer o que é bom e o que é ruim para cada um de nós.

Vivemos o tempo todo preocupados com a violência da cidade, com o dinheiro que precisamos ganhar, com as contas a pagar, se seremos demitidos, se teremos câncer, etc...

Não ousamos mais, não somos mais criativos e não sabemos sequer o momento em que devemos ou não fazer algo.
Nos tornamos escravos de consumos, sem entrarmos em contato se as coisas que consumimos fazem sentido e, principalmente, se as desejamos realmente.
Quantos de nós conseguimos fazer contato verdadeiro consigo mesmo, conhecer suas próprias sensações e sentimentos.

O normal na sociedade é a bitolação, a alienação e a prisão a conceitos que nada significam para as pessoas individualmente e, mesmo assim, elas não conseguem abrir mão desse enganoso "status quo".
Perdeu-se a alegria do bom encontro, de dançar, de cantar no banheiro, de cumprimentar o vizinho, de passear com os filhos, de seduzir o cônjuge, de convidar amigos para fazerem parte de sua vida, de fazer uma boa comidinha para agradar o outro.

Impera o hedonismo, se dá mais valor aos livros de auto-ajuda do que à vida vivida de forma plena, nas alegrias ou nos sofrimentos.

Precisamos, olhar mais para o céu, olhar mais para as crianças que brincam, ver uma "pelada" da molecada na rua, rir alto com os amigos, mesmo em locais públicos, não levar tão a sério os pequenos tombos, rir de si próprio e porque seu time perdeu.
Vida com qualidade é permitir-se ir além.
É sonhar sem deixar de aprender com as possibilidades.
É espantar-se diante do belo, confrontar-se com os amigos sem precisar temê-los.
E saber brigar com os inimigos de forma justa.
Fazer de sua vida, uma taça cheia. Transbordar, porque está se realizando, em processo.
Pessoas precisam se bastar mais, sem, necessariamente, serem auto-suficientes.
Qualidade de vida não é entrar no modismo do "isto não pode, isto não deve"... É caminhar, dançar, transformar e criar a cada momento.


Marisa Speranza
Fonte: www.psicologiaesaude.com.br

Fotos clicadas em 30/01/2011, em Monte Belo do Sul, durante a comemoração da Festa da Vindima.