Publicidade

Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

DIALOGO SEM FINAL (Por Julio Conte)

Ler o que escreve Julio Conte, é sempre um incomensurável prazer.
Mesmo quando o texto não é tão alegre assim... ou quando, nem sequer tem fim.
É q o texto dele, a forma como coloca as palavras... é mágica... ele tem a fórmula mágica da construção de textos através de palavras beeeem encaixadas. O texto fica de uma singeleza ímpar.
Vejam por vocês mesmos, então!


‑ Quanto tempo eu levaria para deixar de te amar?
‑ O quê?
‑ Quanto tempo?
‑ Prá quê?
‑ Prá deixar de te amar...
‑ Nunca deixaria. Nunca conheci um homem como você.
‑ E eu nunca conheci uma mulher como você...
‑ Nunca.
‑ Nunca o quê?
‑ Nunca deixaria de te amar.
‑ Mesmo se casassemos como todo mundo.
‑ Como assim? Você pensa em ser atropelado pelo preço do leite?
‑ Eu penso em ser amassado, tragado, absorvido pelo comum.
- Pelo insuportável... 
- O que mais?
‑ Pelo mau humor, TPM, pelo mau hálito. 
- Você nem ao menos sabe se meus peidos fedem.
‑ Nem seu eu ronco de noite. 
- Ou se tenho insônia.
‑ Nada disso importa, temos algumas horas...
‑ É o suficiente para suportar uma vida de futilidade...
- Duas horas contigo...
- Eternas...
- ...
- ...
‑ Tenho que ir...
‑ A gente se vê...
‑ ...
‑ ...
‑ ...

Fonte: http://bit.ly/NuqPFA

domingo, 12 de agosto de 2012

Misto-quente ou O fim do mundo - Luís Fernando Veríssimo

Ele pediu um misto-quente. Ela se impacientou.

- Você vai comer só isso?

- Vou.

O sanduíche dela era enorme. A alface saía pelos lados. Um molho amarelo pingava no prato. Pontas de tomate, bacon e cebola também apareciam nas bordas. O pão era com sementes de gergelim.

O misto-quente dele era só presunto e queijo entre duas torradas.

- O que você vai beber?

- Água.

- Toma uma coca. Eu estou pagando.

- Água.

- Olha, se você vai ficar assim, é melhor nem ter esta conversa.

- Assim como?

- Assim, emburrado. Se fazendo de coitadinho.

- Só porque eu pedi um misto-quente?

- Escuta. Nós não estamos brigando. Entendeu? Nós vamos só dar um tempo. Aliás, eu vou tentar aquela bolsa no Canadá. É possível até que eu viaje.

- Tá certo.

- Pelo menos põe ketchup nesse misto-quente!

- Eu gosto assim. Simples. Sem adornos. Você sabe que existe uma ordem religiosa que se alimenta exclusivamente de mistos-quentes? Acho que é no Tibete. Isto que você olha com tanto desdém pode ser um dos caminhos para Deus.

- Escuta...

- O misto-quente é uma lição de vida. Quem precisa de mais do que isto, presunto, queijo e duas torradas? O misto-quente é a vida reduzida ao essencial. Todo o resto é supérfluo. Vou passar a comer só misto-quente com água. Quando você voltar do Canadá, eu talvez esteja levitando. Dizem que os monges do Tibete não andam mais no chão. Cada um é o seu próprio helicóptero. Tudo devido ao misto-quente.

- Eu vou pegar uma cerveja. Você quer que eu lhe traga alguma coisa?

- Água.

- Com gás?

- Sem gás. Bolhinha já é afetação.

- Você quer ou não quer ter esta conversa?

- O que há para conversar? Nós vamos dar um tempo, você vai para o Canadá, eu talvez me dedique a um tratado sobre o misto-quente. Origem, antecedentes, morfologia, simbolismo... Não há mais nada para conversar.

- Você, também, faz um drama. Não é o fim do mundo.

- Como, não é o fim do mundo? É o fim do mundo, sim. Você acaba de me dar a notícia de que um meteoro vai se chocar com a Terra.

- Que exagero. Nós vamos só dar um tempo...

- Que tempo?! Você não entendeu? É o fim do mundo. Maremoto. Nova York arrasada. O Japão sob as águas.

- Já vi que não podemos conversar. Eu queria acabar tudo de uma maneira civilizada, mas...

- Não existe maneira civilizada de um amor acabar. É como pedir para você comer esse sanduíche de uma maneira civilizada. Não dá, vai espirrar o molho, o bacon vai cair no seu colo... Vai ser um cataclismo. Amor que não acaba em cataclismo, não era amor.

- Tá bom, tá bom. Coma o seu misto-quente, vá.

sábado, 19 de maio de 2012

O PRATO DE ALMERIA (Sobre a Comissão da Verdade)

Marcos Rolim
A Comissão da Verdade é a chance histórica do Brasil vencer o silêncio e produzir a vergonha.
Há quem não goste da ideia. Os que são contra a Comissão insistem na mentira, porque ela é sua única defesa. Começam a mentir quando falam que a Anistia “foi fruto de acordo” que significou perdão para “os dois lados”. A Lei, entretanto, foi imposta pela ditadura a um Congresso manietado, recebendo 206 votos favoráveis e 201 votos contrários. Um belo “acordo”, não? A oposição votou contra o projeto, porque não se tratava de anistia, mas de auto-anistia. A ditadura queria impedir que seus crimes fossem conhecidos e julgados. O resto é história para boi dormir. Quem tiver dúvida, basta ler o § 2º do art. 1º da Lei 6.683/79 que diz: “Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal”.  A extrema-direita afirma e os ingênuos repetem que a anistia “pacificou” o País.  A lei da anistia é de 1979. Alguns anos depois, o Brasil viveu um surto de terrorismo praticado por militares que se opunham à “abertura”. Dois deles tentaram explodir o Rio Centro na noite de 30 de abril de 1981, onde milhares de pessoas assistiam a show alusivo ao 1º de maio. A bomba, entretanto, explodiu no colo de um sargento. Seu companheiro de “acidente de trabalho”, o então capitão Wilson Dias Machado é, hoje, coronel do Exército e atua como “educador” no Colégio Militar de Brasília.  Antes, em 27 de agosto de 1980, a senhora Lyda Monteiro, secretária da OAB, foi despedaçada ao abrir uma carta-bomba endereçada ao presidente da Ordem, Eduardo Seabra Fagundes. Os responsáveis por estes crimes, entre tantos outros praticados antes e após a anistia, nunca foram responsabilizados, sequer processados.

A Comissão da Verdade foi proposta pela 3º edição do Plano Nacional de Direitos Humanos, de 2009. Virou projeto de lei aprovado pela Câmara e pelo Senado após incorporar várias emendas da oposição. Para os mentirosos, este processo é “viciado”. A presidenta Dilma indicou os membros da Comissão, na forma da lei, escolhendo pessoas de notória capacitação e dignidade. O desafio não é o de punir, mas o de revelar. Não importa, o processo segue sendo “viciado” para as viúvas da ditadura. Compreende-se.  O difícil para os amantes do silêncio é a perspectiva do horror vir à tona, como aquele prato de que nos falou Neruda em Almeria “com restos de ferro, com cinzas, com lágrimas, um prato submerso, com soluços e paredes caídas”, todos os dias, ao café da manhã. Quando isto ocorrer, o Brasil terá atravessado o espelho da dor infinita dos que não puderam enterrar seus mortos e que, ainda hoje, são obrigados ao cinismo dos que negam a existência da tortura. A Comissão não deve se furtar ao exame de quaisquer das graves violações aos direitos humanos praticadas no período, independentemente de sua origem ou motivação ideológica. Mas, por óbvio, seu foco é o terror de Estado, porque é este que não se sabe. Ao final deste processo, o Brasil terá mais consciência sobre si mesmo e haverá na opinião pública mais apreço pela democracia e menos espaço para os covardes.

Artigo publicado em http://bit.ly/L7xeTZ, em 19/05/2012.
 Monumento: tortura nunca mais - Recife


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Desejos Retardados (uma crônica)


Texto de Sérgio Roberto Kieling Franco
Um grupo de alunos de pós-graduação, sentou-se à mesa de um bar nas imediações da Universidade. Eram alunos de diversas áreas. Promoveram essa “reunião interdisciplinar” um tanto por acaso, para tomar uns chopes a título de “Happy Hour”.
Depois de muita conversa jogada fora, de falar de futebol, dos professores, do garçom, dos colegas, de política... Quando tanto a “hour” como o “happy” já iam longe, o assunto começou a ficar mais sério. Os destinos da humanidade começaram a ser discutidos em volta daquela mesa de plástico. (Provavelmente a humanidade estaria muito melhor e o planeta não estaria ameaçado se fossem aplicadas as idéias e conclusões das rodas de bar. O problema é que elas nunca são registradas, e se perdem quando volta a sobriedade. Quando alguém, por algum motivo secreto – até para si mesmo – faz algum registro, o guardanapo é aproveitado para secar a cerveja que derramou ou para outros fins higiênicos.)
A discussão naquela noite girava em torno dos benefícios e malefícios dos avanços tecnológicos. As posições balançavam de um extremo ao outro, assinalando o equilíbrio próprio das posições sábias.
Por um lado eram elogiados o conforto, o combate às doenças, o dilatamento da longevidade. Por outro, eram enumerados o aumento da poluição, a destruição dos recursos naturais, bem como a desorganização de culturas milenares. A diminuição do tempo ocioso pelo trabalho a distância era contrabalançado com o aumento das oportunidades de lazer...
A discussão parecia encaminhar-se para um tênue consenso favorável aos avanços tecnológicos, até que um dos membros de tão honrosa trupe interrompesse com uma afirmação revestida de uma convicção tão sólida e estarrecedora, que fez todos se calarem.
— Definitivamente o avanço tecnológico adia a realização dos desejos das pessoas!
De todos os argumentos contrários ao avanço tecnológico colhidos durante a conversa, isso nunca havia sido levantado. Tal afirmação ia contra um consenso tácito. Por isso mesmo pairou no ar um sentimento de perplexidade. Houve alguns balbucios, mas ninguém conseguiu dizer algo inteligível. E o provocador disso tudo, então, continuou com a calma de um papa que cita um dogma.
— O avanço tecnológico atrasa a realização dos desejos humanos, e uma prova tenho aqui comigo, no meu pulso direito.
E passando os olhos pelos olhares atentos (ainda que um tanto tontos) dos companheiros, continuou:
— Uma tradição baiana e brasileira é que se pode adquirir uma fita do Senhor do Bom Fim e atá-la no pulso dando três nós. Ao fazer isso, deve-se mentalizar um desejo. Reza a tradição que, ao se romper a fita, o desejo se realiza.
Ninguém conseguia dizer uma palavra. Não era possível saber onde aquele sujeito, conhecido por sua argúcia intelectual queria chegar. Sequer tomar mais um gole de chope era possível. Todos estavam paralisados (um pouco pelo excesso de álcool, mas muito pela colocação inusitada do amigo).
— Vejam! — continuou ele — Com o advento da tecnologia houve um grande avanço na manufatura de tecidos. Os tecidos sintéticos tornara-se mais duráveis e até mais baratos que os naturais. Como conseqüência, as fitinhas do Senhor do Bom Fim passaram a ser feitas com tecido sintético. Devido à durabilidade do tecido e ao fato de que esse material não se decompõe facilmente, pois é à base da plástico, as fitas demoram muito mais para cair, e portanto fazendo com que os desejos sejam muito mais custosos de serem alcançados.
Acabando de dizer isso, pegou seu copo de chope e esvaziou-o em um gole.
A conta foi trazida pelo garçom, que na sua sensibilidade, cevada em anos de experiência, percebeu que algo estava errado naquela mesa. Já trouxe a conta dividida pelo número de integrantes. Cada um colocou o dinheiro da sua parte na mesa e, despedindo-se apenas com um aceno, saiu na direção de sua casa.
A perplexidade, no fundo , era porque ficara no ar um sentimento de que, de algum modo, aquele colega tinha razão. Embora fossem ávidos usuários das novas tecnologias, no fundo sabiam que algo se esvaía de suas vidas, e não sabiam bem nem por que, nem o quê.

sábado, 12 de maio de 2012

Lá vai um... (Luís Fernando Veríssimo)


O sono não vem. Você já leu tudo que queria ler, e o sono não vem. Você já repassou tudo o que fez durante o dia e planejou tudo que fará no dia seguinte, e o sono não vem. E o dia seguinte ainda está longe.

Contar carneirinhos pulando a cerca, será que adianta mesmo? Coisa de americano. Mas lá vai um, lá vai dois, lá vai três... Ih, lá vem o um de volta. Organização, gente. Lá vai quatro. O cinco não conseguiu. O seis pulou em cima do cinco... Assim não vai dar. Você vai ficar ainda mais tenso.

Pensar em nada. Isso. Fechar os olhos e pensar em nada. Esvaziar o cérebro. Concentrar o pensamento num ponto no exato centro do seu cérebro, depois transportar esse ponto para o exato centro do Universo. Você não é mais você, você é o que existe em torno desse ponto luminoso no exato centro do Universo.

Você é o Universo! Se você abrir os olhos, o Universo vazará pelos seus olhos e inundará seu quarto, inundará sua vizinhança...

Suas pálpebras são só o que retém o Universo dentro do seu cérebro e o impedem de invadir... o Universo. Suas pálpebras são as únicas tênues defesas do Universo contra o caos. Não abra os olhos, não abra os olhos, não abra os... Você abre os olhos, em pânico. Quem pode dormir com tanta responsabilidade?

Quem sabe ler mais um pouco? Tanta coisa para ler... Na verdade, só quem tem insônia tem tempo para ler. É por isso que todo intelectual tem aquela cara de zonzo. Não é cultura, é sono. Intelectual não dorme. Não dorme porque é intelectual ou é intelectual porque não dorme e tem tempo para ler? Você não sabe. A sua insônia não tem qualquer proveito cultural. A sua insônia, além de tudo, é burra.

Você lembra que quando era criança achava que tinha um monstro embaixo da cama. Quando precisava fazer xixi durante a noite, dava um pulo da cama, pro monstro não pegar o seu pé. E na volta dava outro pulo pra cima da cama. O engraçado era que você nunca imaginava que o monstro fosse sair debaixo da cama e correr atrás de você.

Era um monstro terrível, comedor de pé de criança, mas era preguiçooooso... Você pensa: até que seria bom se houvesse mesmo um monstro embaixo da sua cama. Pelo menos alguém para conversar. Trocar reminiscências da infância... Lembra os pulos que eu dava para cair na cama sem você me pegar? Vocês dariam boas risadas.

Nem precisava ser um monstro. O ideal seria ter um psicanalista embaixo da cama. Além de alguém para conversar, alguém para curar a sua insônia. Quem sabe contar psicanalistas pulando a cerca? Lá vai um, lá vai dois, lá vai três... Ei, você, o quarto: não é para analisar o simbolismo da cerca, é para pular! Deve ser um freudiano ortodoxo. Lá vai quatro, lá vai cinco...

Você começa a enumerar todas as mulheres que teve na sua cama de adolescente. Artistas de cinema, vizinhas, primas... Sua imaginação as colocava ao seu lado na cama e vocês se amavam loucamente. E o melhor: depois do amor, depois de saciado – você dormia! Como você dormia antigamente. Que fim levara aquele sono todo?

Cérebro vazio. Pensar em nada. Esperar o amanhecer. Esperar o bendito dia seguinte. E o dia seguinte parece ficar cada vez mais longe.

Estadão
Zero Hora
06/05/2012