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domingo, 17 de abril de 2011

E Viva a Variação Linguística (Recebi do @hapoesia)

Recebi um carinho.. pois é... um carinho em forma de texto, de um amigo que conheci via Twitter. O Marcos Lima (no Facebook e no Twitter) 

O texto (que reproduzo abaixo) foi-me deixado no Facebook.
E viva as Redes Sociais!!

Este texto foi postado por Beleza Interior, no FB, que é mantida pelo Carpinejar.

Tem-se falado muito no #Twitter sobre as características regionais deste Brazilsão, dentre elas as variações linguísticas.
Por exemplo, eu escrevo muito usando o tu, te, ti... tão comum aqui no Rio Grande do Sul, enquanto muitos dos que sigo (e me seguem) falam você.
Uso muito outras expressões bem gaúchas (Bah! é a mais comum), e outras mais tipicamente portoalegrenses, como "capaz", "pior", "findi" ...

Gostei do texto, por isso o reproduzo aqui. Vejam!


Se no Rio Grande do Sul o "pior" é concordar, o "capaz" é negar, mostrar contrariedade e até desconfiança com a questão.

- Foi na festa do Paulo no sábado?
- Capaz!

No Brasil, emprega-se o capaz como sinônimo de apto, disposto, adequado. É exatamente o contrário aqui, provando nosso talento oposicionista. Revela um deboche, um "nada a ver". O capaz diz ao interlocutor que ele "viajou", "exagerou", "perdeu a noção da realidade".

(um indício do comportamento autossuficiente no estado: o dicionário mais procurado nas escolas era o de Celso Pedro Luft, um gaúcho, em vez do tradicional Aurélio)

Em caso de ofensa com uma pergunta, o "capaz" é antecedido pelo "bem", resultando num cômico trenzinho de vogais:

- Está namorando o Paulo?
- Beeem capaaaz!

Charles Chaplin - O ultimo discurso de O grande ditador


O último discurso
de “O Grande Ditador”
            Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
            Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
            O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.  A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
            A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
            Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
            Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
            É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
            Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

terça-feira, 1 de março de 2011

Sexualidade do Casal Idoso (È um texto interessante)

Considero este assunto de suma importância, pois as pessoas vão envelhecendo (eu, inclusive... só envelhecendo, mas ... sempre estou a me informar sobre o q posso) e vão se mantendo presas a mitos, crenças...ideias absurdas de impossibilidades de continuar tendo uma vida plena... o que acho lastimável, pois, assim, a morte chegará antes.

Este texto está em http://bit.ly/fc6S2d  que é o blog do @semeando30

Reproduzo-o na íntegra, abaixo.Espero aproveitem e... passem adiante!

 

 
Sexualidade do Casal Idoso – Atitudes e comportamentos que precisam de educação sexual

Mitos sobre idade e sexualidade
O que mais se fala em nossa cultura sobre a sexualidade em idosos são circunstâncias mitificadas. Vejamos dois mitos contraditórios comuns de se ouvir:
Mito 1- Ao envelhecer, não há qualquer mudança no interesse sexual do homem, nem na resposta ou desempenho sexuais.
Mito 2- Envelhecendo você perde o interesse no sexo e não conseguirá mais fazer sexo.
Esta compreensão sem fundamentação cientifica precisa ser substituída, mas somente o será trazendo esta discussão com quem ainda não atingiu uma idade mais avançada.
O aumento da expectativa de vida no séc. XX mostrou que o número das pessoas com mais de 65 anos tem crescido muito. No ano 2000 tínhamos no Brasil 9.926.472 pessoas com mais de 65 anos. A tendência de aumentar a percentagem já é percebida, fazendo com que as próximas décadas produzam mais habitantes com vida mais prolongada sobrevivendo!
Mesmo com o crescimento da população, mais idosos, pouca atenção tem sido dedicada ao tratamento de disfunções sexuais em idosos, senão até a última década do séc. XX. [1] E mesmo assim esta discussão apenas começou e ainda precisa de muita atenção de profissionais de saúde.
A Organização Mundial da Saúde, a partir de discussões e consultas a grupos de especialistas em sexualidade entre 1974 e 2003, definiu a Saúde Sexual:
“A integração dos aspectos afetivos, somáticos e intelectuais do ser sexuado, de modo tal que dela derive o enriquecimento e o desenvolvimento da pessoa humana, a comunicação e o amor”.
No transcorrer da senectude, a sexualidade segue desempenhando um papel importante, mesmo que pese a falta de oportunidades para exercê-la e a marginalização que socialmente sofre a população idosa.
Winn e Newton (1982)[2] usaram arquivos para comparar a sexualidade de idosos em 106 culturas. Concluíram que a continuidade da sexualidade em idosos em muitas sociedades significava que os fatores culturais devem ser a chave determinante para o comportamento sexual. A compreensão da sexualidade no idoso é o que permite que idosos aproveitem a vida sexual.

Sexo muda com a idade – homens[3]
Idosos não conhecem as mudanças no funcionamento sexual relacionados ao envelhecimento, e adotam as atitudes sociais de sexo e atividades sexuais que aprenderam que eram de idosos. Este “conhecimento” aprendido desde infância sobre como deverá ser mais tarde na vida produz muita ansiedade relacionada a expressão da sexualidade. Buscar atividades sexuais sob ansiedade prejudica o desempenho sexual de homens e mulheres, produzindo disfunções sexuais.
A ansiedade e medo advinda da interpretação negativa das mudanças genitais e da função sexual associadas com a idade está na base de muitos problemas vividos pelos mais idosos.
Mudanças genitais e da resposta sexual precisam ser conhecidas por quem envelhece e pelos profissionais de saúde que deles cuidam.
Por exemplo, homens tendem a precisar de mais tempo para obter uma ereção, existe aumento do tempo de ereção pré-ejaculação, diminuição da força da ejaculação, e o aumento do tempo da fase refratária, dificultando a próxima ereção.
Embora a incidência de disfunções sexuais aumentem com a idade, associam-se a problemas de saúde que aumentam com a idade, e não com a idade por si.
Muitas doenças endócrinas, vasculares, e neurológicas podem interferir na função sexual, tanto quanto os medicamentos e cirurgias para os tratamentos. Estes fatores de saúde são mais prevalentes em idosos, o que não deveria surpreender termos mais causas orgânicas para as disfunções sexuais nos idosos.
Os fatores patológicos que afetam a função sexual: doenças cardiovasculares, demência, artrite e cirurgias.[4]
Medicamentos que afetam o sistema nervoso autônomo podem interferir com a função sexual.
Muitas medicações que idosos usam também afetam a sexualidade: anti-hipertensivos, tranqüilizantes, antidepressivos.
Mudanças que ocorrem na fisiologia do homem idoso podem afetar a ereção e a ejaculação.
Estas mudanças não precisam ter um impactos na obtenção de prazer sexual, e não teriam se não fosse a interpretação errada que as pessoas fazem ao ficarem mais velhas.
Conhecer que estas mudanças não são disfuncionais e o auxílio para adaptações na prática sexual são cruciais para a prevenção de disfunções sexuais devido a ansiedade.

Sexo muda com a idade – mulheres
Na mulher idosa os efeitos fisiológicos do envelhecimento que afetam a função sexual devem-se ao decréscimo de circulação de estrogênio após a menopausa.
A velocidade e quantidade de lubrificação vaginal diminui e ocorre uma atrofia geral da vagina. Para muitas mulheres estas mudanças significam a liberdade para explorar a atividade sexual com prazer e sem preocupar-se com a gravidez.
Mudanças Genitais na mulher incluem redução do tamanho do clitóris, da vulva, do tecido labial, diminuição do tamanho do cérvix, útero e ovários, e perda de elasticidade e afinamento da parede vaginal.
Algumas mulheres podem experienciar lubrificação inadequada e coito pode ser doloroso com as paredes vaginais muito finas.
O declínio cognitivo que pode ocorrer em idosos pode influencias a atividade sexual.
A deterioração cognitiva relacionada a desordens de demência pode afetar o comportamento sexual, produzindo problemas no relacionamento do casal.

Sexualidade – comportamentos
Pesquisa com 800 idosos sobre o que sentiam sobre as atividades sexuais revelaram que os idosos definem e expressam a sexualidade de modo mais difuso e variado do que os grupos mais jovens sugerindo que as mudanças na expressão da atividade sexual pode ser mais comum com o avanço da idade.[5]
Comportamento sexual e atitudes sobre sexo no idoso refletem a continuidade dos padrões adquiridos nas duas primeiras décadas de vida.
Aqueles mais ativos na juventude tendem a manter este padrão durante toda a vida.
Atitudes negativas sobre sexo aprendidas na juventude podem produzir interferir na habilidade de obter prazer sexual na terceira idade.
Atividade sexual relaciona-se com comportamento e atitudes sexuais, grau de interesse sexual, e freqüência de atividade sexual anterior.
Outros fatores psicossociais que afetam o funcionamento sexual de idosos:  muitos casais com problemas de rotina e vida enfadonha com o relacionamento de longo prazo, relacionamento ou casamento sem amor nas décadas intermediarias minam a possibilidade de condições futuras.[6]
Mudanças no estilo de vida relacionadas a aposentadoria, mudanças e problemas de adaptação, precisam ser considerados.
Com a aposentadoria o homem deixa as atividades percebidas como masculinas o que pode produzir diminuição da auto-estima e afetar o desempenho sexual.
Sanções religiosas que restringem o sexo à reprodução e ignoram a importância da intimidade, amor e prazer sexual na produção do bem estar, negam a importância destas necessidades humanas.

Educação sexual não é apenas para jovens
Conhecimento e atitudes sobre sexualidade influencia as percepções sobre as necessidades sexuais e sentimentos na terceira idade. [7]
Associação entre conhecimento e atitudes sobre sexo na terceira idade.
Intervenções educacionais são necessárias para diminuir mitos, estereótipos e iniciar atitudes positivas a idosos para promover a percepção de que a expressão sexual faz parte da vida independente da idade.
É ampla a evidência que sugere que a educação sexual para idosos conduz a atitudes positivas sobre sexo.
Idosos tem poucas oportunidades de acesso a educação, menos ainda a educação sexual.
Idosos não tem acesso a informações sobre sexualidade e desconhecem o funcionamento sexual.
Nas casas de repouso e serviços geriátricos em que pessoal de saúde tem mais informações sobre sexualidade, os idosos tem atitudes de maior aceitacao sobre sexualidade.
Através do “Aged Sexuality Knowledge and Attitudes Scale (ASKAS)”, um estudo do efeito da intervenção educacional sobre sexualidade em idosos, familiares e profissionais de saúde apontou:[8]
Existe um aumento significativo do conhecimento, das atividades sexuais e satisfação com o sexo, e o desenvolvimento de atitudes mais permissivas após a intervenção educacional de um processo de Educação Sexual aplicado a idosos.
Antes de 1980, a maioria dos sujeitos de pesquisas em sexualidade eram idosos de casas de repouso, produzindo apenas conhecimento limitado a atitudes negativas sobre sexualidade[9].
Estudos sobre profissionais de saúde com idosos mostram que com o aumento de conhecimento deles sobre sexualidade em idosos produzem maior aceitação das atitudes sexuais em idosos.
Assim os psicólogos que se dedicam a atender queixas sexuais podem auxiliar casais mais idosos a compreenderem suas mudanças e poderem mudar idéias errôneas e mudar processos mentais que os conduzem a erros. Assim virá uma felicidade sexual possível e real.

Postado por Raphael on February 18th, 2011  
 
[1]Starr, B.D. (1985). Sexuality and the Aging.American Review of Gerontology and Geriatrics, 5, 97-126.
White, C.B., & Catania, J.A. (1982).Psychoeducational Intervention for Sexuality with the Aged, Family Members of the Aged and People Who Work with the Aged.International Journal of Aging and Human Development, 15, 121-138.
[1]Story, M.D. (1989). Knowledge and Attitudes About the Sexuality of Older Adults Among Retirement Home Residents. Educational Gerontology, 15, 515-526.

[1]Spence, S.H. (1992). Psychosexual Dysfunction in the Elderly.Behaviour Change, 9, 55-64.
IBGE- http://www.ibge.gov.br/seculoxx/estatisticas_populacionais.shtm
[2]Winn, R.L., & Newton, N. (1982). Sexuality and Aging: A Study of 106 Cultures. Archives of Sexual Behavior, 11, 283-298.
[3]Spence, S.H. (1992). Psychosexual Dysfunction in the Elderly.Behaviour Change, 9, 55-64.
Deacon, S., Minichiello, V., & Plummer, D. (1995). Sexuality and Older People: Revisiting the Assumptions. Educational Gerontology, 21, 497-513.
[4]Deacon, S., Minichiello, V., & Plummer, D. (1995). Sexuality and Older People: Revisiting the Assumptions. Educational Gerontology, 21, 497-513.
[5]Starr, B., & Weiner, M.B. (1981).Sex and Sexuality in the Mature Years. New York: Stein & Day.
[6]Garrison, J.E. (1989). Sexual Dysfunction in the Elderly: Causes and Effects. Journal of Psychotherapy and the Family, 5, 149-163.
[7]Hillman, J.L. &Stricker, G. (1994). A Linkage of Knowledge and Attitudes Toward Elderly Sexuality: Not Necessarily a Uniform Relationship. The Gerontologist, 34, 256-260.
Deacon, S., Minichiello, V., & Plummer, D. (1995). Sexuality and Older People: Revisiting the Assumptions. Educational Gerontology, 21, 497-513.
Fonte: Psic. Oswaldo Martins Rodrigues Junior CRP 06/20610 – GEPIPS – Grupo de Estudos e Pesquisas do Instituto Paulista de Sexualidade -  Coordenador de Pesquisas – rua Atalaia, 195 – Perdizes Cep: 01251-060 – São Paulo – SP Brasil www.inpasex.com.br www.oswrod.psc.br – e-mail oswrod@uol.com.br

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar: A velhice maquiada

Moacyr Scliar: A velhice maquiada


Livro lançado nos Estados Unidos ensina aos idosos como não parecer idosos
MOACYR SCLIAR


O chamado abismo entre gerações só fez se aprofundar nas últimas décadas, em primeiro lugar porque as pessoas estão vivendo mais, o que aumenta a proporção de idosos na população, e depois porque a tecnologia, que não para de avançar, substituiu aquela tradicional sabedoria que tornava os velhos pessoas respeitáveis. A velhice perdeu muito de seu prestígio; mostra-o um livro recentemente aparecido nos Estados Unidos que tem como objetivo exatamente isso: ensinar aos idosos como não parecer idosos.

Intitula-se How Not to Act Old (Como não Agir à Moda dos Velhos, em livre tradução). É obra da jornalista e escritora Pamela Redmond Satran (este sobrenome lembra Satan, e acho que não por acaso, como já veremos). Trata-se de uma ampliação do website hownottoactold.com, pelo jeito muito popular. E suas considerações não se restringem a roupas, dieta, botox e cirurgia plástica; envolvem o estilo de viver e a maneira de falar.
São dezenas de conselhos, alguns primando pela obviedade. Cuidado com a gíria, diz Ms. Satran, e de fato todo mundo sabe que o uso de gíria antiga é sinal de velhice. Quem usa a expressão azar fresquinho? E saindo um pouco da gíria, quem chama táxi de carro de praça, senão os mais antigos? Se você for convidada para um casamento, não mande fazer vestido novo. Não chore na hora da cerimônia. Para os homens: não fique bêbado. Se vai viajar, não fique ansioso, não chegue no aeroporto três horas antes. Não prepare uma bagagem de quem está emigrando.
Mas Satran vai mais além. Ela também sugere os assuntos sobre os quais se deve e não se deve falar. Menopausa, por exemplo, é assunto tabu. Doença também é. Idosos estão proibidos de falar sobre suas mazelas (diabetes, pressão alta) e sobre a quantidade de medicamentos que estão tomando, um tema aliás, preferencial. Mais: devem evitar conselhos, tipo "vai chover, leve o guarda-chuva".

Até aí ainda dá para aceitar. Mas há um outro assunto tabu: os netos. A dúvida inevitavelmente emerge: o que farão os avós corujas, que são praticamente todos os avós? Como conseguirão reprimir a vontade de contar a última do netinho ou da netinha, de mostrar as fotos, coisa que, aliás, ficou frequente, agora que todo o mundo têm cameras digitais?
Mas o livro chega ao clímax quando Sartran formula o seu conselho maior: "Não morra". Logo em seguida, porém, dá-se conta do absurdo - nem os membros da Academia Brasileira de Letras acreditam na imortalidade – e emenda: "Mas, se você morrer, escolha morrer como jovem, não como velho". Exemplo de morte jovem: perecer num desastre de moto. É uma coisa tristemente frequente, como a gente constata pelo noticiário, mas será que alguma pessoa, jovem ou idosa, deveria morrer assim?
O pior, porém, é o exemplo que a escritora dá de uma morte de velho: alguém que tem um enfarte fazendo sexo com uma mulher daquelas chamadas de "vida fácil" (espero que esta gíria ainda seja atual). Sartran vê isso como uma coisa vergonhosa e em muitos casos certamente é, mas, convenhamos, é algo que mostra um apego à existência, uma verdadeira celebração do instinto vital, que, sendo instinto, escapa à classificações moralistas.

Ao final do livro, a gente fica se perguntando: valem a pena todas essas precauções? Será que não é melhor assumir a idade que a gente tem, e que, apesar de tudo, traduz uma verdade? Será que os idosos terão de fingir para serem aceitos pelos mais jovens? Se a resposta for afirmativa, não podemos escapar à conclusão de que a autenticidade passou para um segundo plano. E isso não é uma boa. Que pessoas de idade aprendam a usar o computador, que façam esporte, que cuidem da aparência, que aprendam a andar de moto, tudo bem. Mas que renunciem à sua própria vida, à sua identidade, essa não. Os livros de autoajuda têm de arranjar um assunto melhor. Como diz a resenha do jornal Independent, a autora esqueceu só uma coisa: não existe nada mais velho do que ficar se preocupando em como evitar a aparência de velhice.

DONNA ZH

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Qualidade de Vida: é permitir-se ir além

Sempre que abordo o tema qualidade de vida, gosto de utilizar a expressão "vida com qualidade".

Ambas parecem ter o mesmo significado, porém um olhar mais acurado descobrirá nelas conotações diferentes.

Todos concordamos que temos que caminhar, tomar sol antes das dez da manhã, passar bloqueador solar, comer melhor, não beber, não fumar... mas, são tantos esses "mandamentos", que, no afã de cumpri-los, podemos acabar estressados, deixando de lado o que certamente é mais importante: a alegria de viver.

O que ocorre é que, nesse cotidiano agitado, em que temos que compatibilizar as exigências de casa e de trabalho, estamos perdendo a capacidade de reconhecer o que é bom e o que é ruim para cada um de nós.

Vivemos o tempo todo preocupados com a violência da cidade, com o dinheiro que precisamos ganhar, com as contas a pagar, se seremos demitidos, se teremos câncer, etc...

Não ousamos mais, não somos mais criativos e não sabemos sequer o momento em que devemos ou não fazer algo.
Nos tornamos escravos de consumos, sem entrarmos em contato se as coisas que consumimos fazem sentido e, principalmente, se as desejamos realmente.
Quantos de nós conseguimos fazer contato verdadeiro consigo mesmo, conhecer suas próprias sensações e sentimentos.

O normal na sociedade é a bitolação, a alienação e a prisão a conceitos que nada significam para as pessoas individualmente e, mesmo assim, elas não conseguem abrir mão desse enganoso "status quo".
Perdeu-se a alegria do bom encontro, de dançar, de cantar no banheiro, de cumprimentar o vizinho, de passear com os filhos, de seduzir o cônjuge, de convidar amigos para fazerem parte de sua vida, de fazer uma boa comidinha para agradar o outro.

Impera o hedonismo, se dá mais valor aos livros de auto-ajuda do que à vida vivida de forma plena, nas alegrias ou nos sofrimentos.

Precisamos, olhar mais para o céu, olhar mais para as crianças que brincam, ver uma "pelada" da molecada na rua, rir alto com os amigos, mesmo em locais públicos, não levar tão a sério os pequenos tombos, rir de si próprio e porque seu time perdeu.
Vida com qualidade é permitir-se ir além.
É sonhar sem deixar de aprender com as possibilidades.
É espantar-se diante do belo, confrontar-se com os amigos sem precisar temê-los.
E saber brigar com os inimigos de forma justa.
Fazer de sua vida, uma taça cheia. Transbordar, porque está se realizando, em processo.
Pessoas precisam se bastar mais, sem, necessariamente, serem auto-suficientes.
Qualidade de vida não é entrar no modismo do "isto não pode, isto não deve"... É caminhar, dançar, transformar e criar a cada momento.


Marisa Speranza
Fonte: www.psicologiaesaude.com.br

Fotos clicadas em 30/01/2011, em Monte Belo do Sul, durante a comemoração da Festa da Vindima.

sábado, 15 de maio de 2010

Eu em pedaços: incompleta

Desfaço-me, desmancho-me, derreto-me.
Tento me constituir.
Tento me refazer, me reconstruir.

Vejo-me sempre incompleta, irregular, aos pedaços
Pedaços sobrepostos, mal encaixados; ora sim, ora não.

Mas... quem sou eu de fato?
O que me compõem?
O que quero ser? Como quero ser?

Toda vez tento me refazer para ser um EU sempre novo, mais completo, e toda vez me percebo tão incompleta...

Parole, parole, parole...

Palavras perdidas numa madrugada qualquer de outono...

Encontramos sempre razões para tudo.
Providência divina...
Impotência...
Cultura...
Interpretações que fazemos sobre o que é dito.

O meu dizer só se completa no ouvir, quando o ouvir é completo, senão eu nada disse.

Inusitado, autêntico, o que não existe, mas está por vir.
materializar o ainda não realizado, imaterializado...